Já era tarde da noite, mas nunca tivemos hora mesmo e por isso estávamos acordados na tenda que era bastante espaçosa. Eu era uma cigana de 12 anos, bem bonita; morena, cabelos longos cacheados, rosto arredondado. Eu era um pouco gordinha, também era uma garota esperta e viva. Lembro que usava meu vestido vermelho, que tirando o vestido de festa que usava para dançar aquele era o meu preferido, mesmo já estando velhinho. Não tínhamos muito dinheiro ganhávamos o suficiente para viver e vivíamos bem assim. Tínhamos nossas próprias regras. Na tenda comigo sentada sobre um pequeno barril estava minha irmã que tinha por volta de 11 anos, o nome dela era Sara, ao contrario de mim ela era calma, tinha os cabelos lisos, pele morena clara e era bem magrinha; era linda. Aquele ar sereno no rosto encantava qualquer um. E tinha também um menino em pé ao meu lado, o Dim, o nome correto é Dimitre; nosso melhor amigo. Ele era branco, e um gagim era proibido no acampamento, mas nem me lembro como ele foi aceito por lá. Desde que me reconheço por gente sempre esteve conosco, não me recordo de andarmos sem ele; talvez por ser criança a matriarca permitisse.
É estranho eu sei, mas nosso acampamento era dirigido por uma mulher e chamávamos de matriarca era uma senhora já idosa, todos a respeitavam ela era dotada de grande poder de vidência e diziam que sua magia era poderosa. Meu nome era Alana.
Dim para os adultos era tratado de “gagim”. Assim como os gagins adultos não gostavam de nós porque nos chamavam de ladrões e sujos, nós não gostávamos deles.
Estávamos conversando na tenda quando ouvi um grande falatório do lado de fora, eram os homens, consegui ouvir que eles tinham pegado um homem branco que além de invadir o acampamento tinha matado um dos nossos. As acusações eram gravíssimas. Os homens discutiam o que fazer, eu queria ver quem era, mas nós mulheres não podemos participar dessas conversas quanto mais uma criança. Aproximei-me de uma abertura na tenda e cautelosamente coloquei meu rosto para fora e espiei. A lua estava cheia e clareava bem o local, vi o rosto do homem quando os outros o arrastaram passando próximo a nossa tenda, estava apavorado tinha a pele tão alva, cabelos curtos castanhos e olhos bondosos. Era um homem alto, magro de uns 33 anos, usava um blusão branco. Naquele olhar amedrontado tive toda a certeza do mundo que aquele homem não havia matado ninguém, ele provavelmente ficou encantado pela beleza exótica de uma de nossas mulheres quando foram a cidade ganhar algum dinheiro e veio ter com ela aqui. Ele de certo não tinha noção de que era proibido. Mas e o cigano morto? Não sei como aconteceu tão pouco sei explicar a minha certeza de que ele não é um criminoso.
Os homens decidiram carregá-lo a presença da matriarca, ela com sua sabedoria ia dizer o que deveria ser feito.
Quando os homens se aproximaram da tenda entrei. Falei com Sara e com Dim que o homem não havia matado ninguém e de repente não sei o que aconteceu, comecei a falar várias coisas e todas tinham sentido para mim era algo que ia acontecer e era importante, quando voltei a mim Sara estava me chamando e dizendo que eu falava coisas que ninguém entendia e infelizmente eu não lembrava nada. Mas meu coração por um momento ficou apertado eu sabia que tinha o dom da vidência e sabia que eu era mais forte do que a matriarca; e eu estava crescendo com o tempo seria uma ameaça a sua supremacia, senti necessidade de me proteger precisava esconder esse dom pelo tempo que pudesse, entretanto agora não conseguia pensar com clareza, só estava preocupada com o rapaz. O tempo passava e nada acontecia.
Deveria ser por volta de uma da manhã quando os homens passaram novamente. O veredicto foi dado e seria a morte ao nascer do sol. Amarraram no ao tronco no centro do acampamento, nossas carroças e tendas ficavam em circulo formando uma grande praça.
Não sei o que deu em mim, mas eu precisava fazer algo, eu precisava tentar salva-lo. Falei com Sara e Dim, eles não entenderam, mas ajudariam. Fora da tenda pegamos nossas bicicletas e saímos do acampamento por um lado em que não havia ninguém, as mulheres estavam recolhidas e os homens concentrados em volta da fogueira bebendo vinho, limpando os seus punhais e esperando o amanhecer. Queria chegar à cidade o mais rápido possível, mas além da distancia, pois o acampamento ficava no final de uma estrada de barro cercado de um mato muito alto que a deixava escura e para piorar havia chovido muito noite passada, o barro estava fofo e a estrada esburacada. O barro respingava sobre minhas pernas pensei em como chegaria ao acampamento, logo depois cheguei à conclusão que aquilo pouco importava.
Já tinha se passado muito tempo quando finalmente chegamos ao nosso destino. Uma rua que terminava na subida de um morro, uma rua toda em paralelepípedo que refletia um tom prata sobre a luz da lua e de antigas luminárias na rua. A primeira casa antes da subida do morro era uma casa muito antiga de cor branca que ficava ao nosso lado direito. Paramos no inicio da rua, tudo o que eu sabia é que nela morava uma senhora idosa que podia nos ajudar a salvar o homem, mas algo me detinha, não consegui me mover, sentia um medo e me sentia vigiada. Era verdade do alto do morro pude ver escondido atrás de muros e pedras diversos gagins e tive medo, pois eles nos detestavam, o medo de ser atacada cresceu, pensava em como chegar a casa sem enfurecê-los, mas não conseguia me mover ficava ali parada e o sol estava quase nascendo. Ficava tentando imaginar o que aquela velha senhora podia fazer para salva-lo quase tentando justificar-me dizendo que eu realmente não podia fazer nada. Diante desses sentimentos de medo e impotência fui arrancada deste sonho, olhava ao redor de minha cama procurando no meu quarto pela resposta a única pergunta que me angustiava, “consegui salva-lo?”. Minha consciência gostaria que sim, porém o sentimento que tenho é não. É como se em minha imaginação eu até conseguisse vê-lo sangrando naquele tronco. Quis voltar a sonhar, entretanto foi impossível; talvez porque meu coração já tenha me dado a resposta.